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| Josué (Mauri de Castro) e Alípio (Juquinha) |
CRÍTICA SOBRE URUBUS: retirado do link abaixo
http://pedrovitor.livejournal.
29 March 2011 @ 08:02 pm
O LIXÃO DA VIDA REAL
Cru. Essa é a palavra que define o (pequeno) filme “Urubus”, escrito por Miguel Jorge. Seu projeto, baseado nas relações entre catadores de lixo, distanciam muito da discussão ambiental e se aproximam de um questionamento filosófico. As relações mais cruas, com feridas abertas, sem escrúpulos, sem medo. Estamos falando de um filme que toma o lixão (real) como cenário, mas acalme-se, tudo é mais metafórico que se pensa.

Fazendo uma ponta com “Lixo Extraordinário”, de Vik Muniz, filme que também apresenta uma proposta similar, usando o mesmo cenário. O artista plástico faz questão de abordar a destreza do ser humano ao desperdiçar tanto lixo físico e indaga ao poder (absurdo) de marginalizar tantas pessoas que dependem do mesmo. São pessoas que estão (praticamente) do nosso lado e mantém uma perspectiva de vida muito distante da nossa. É a hora que paramos para pensar em nossas próprias preocupações diárias, nossas reclamações sem fundamento e nossas ambições egoístas. Às vezes é necessário esse choque de realidade para que possamos dar valor ao mínimo, assim como, metaforicamente, os personagens desses filmes fazem em seu cotidiano.
O curta é seco, frio, bem como as relações que nós temos e fingimos não perceber. É tudo isso que Miguel Jorge aponta nas caras dos telespectadores com os diálogos entre os personagens. Talvez esse caráter extremo de sobrevivência seja o estopim para tanto tapa na cara. Todas as indagações que nós mesmos temos medo de nos perguntar e todas as respostas que temos pavor de ouvir. O instinto que nos permeia e tentamos reprimir é uma chama acesa que mantém esses dois personagens vivos, sempre à busca de mais um dia. E mais outro. O teor experiente de um ensinando a um filho como viver o que ainda lhe resta. Na força. Na autoridade. Provando que até nos lugares mais improváveis, o poder também existe.
O filme leva “Urubus” em seu nome, na tentativa (certeira) de iconizar o extremo. O destino. O medo. O animal que supostamente irá cercar o que sobrou de você mesmo. Estamos falando de sobrevivência, mas nem de longe é a física, e sim a mental. O que nos apavora dia-pós-dia? A rotina? O chefe, as contas, responsabilidades, futuro? Como fugir disso? Como evitar que isso aconteça?
Usei dessa metalinguagem pra ilustrar o que essa obra é capaz de nos causar. E esses são só alguns dos questionamentos que estão por vir. Miguel Jorge, porém, não deixa essas lacunas soltas. Ele faz questão de cravar uma faca na ferida de cada um a cada cena que se passa, a cada diálogo, a cada olhar dos personagens – seja o submisso, de Juquinha, ou o alfa, de Josué. É isso mesmo. Medo versus Coragem numa batalha que, o roteirista deixa claro que, é sem fim.
Com certeza um filme que muitos deveriam se espelhar, se basear ou até (obviamente) admirar. Talvez seja dessa coragem que o cinema brasileiro precisa. Coragem de ter a mão pesada, como a de Miguel Jorge, para esbofetear o primeiro que faça questão de viver na esfera da alienação. Um que grite, te choacoalhe e mostre para você que a vida não é esse mar de rosas que o comodismo nos apresenta. Quem sabe assim, esses percebam a vida como, de fato, ela é ou, até mesmo, reconheça que o urubu está mais próximo do que se imagina.
Tags: lixo extraordinário, miguel jorge, urubus, vik muniz
- PEDRO VITOR
(Aspirante a) Publicitário, DJ, produtor, revisor, editor e ditador das próximas tendências lexicais dos brasileiros
LINK DO VÍDEO NO YOUTUBE
http://www.youtube.com/watch?v=mDyinzeU05I


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